Leituras

Livros para crescer na escrita – 2

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho

O autor, livros e títulos

Mário de Carvalho dispensa apresentações. Depois de muitos anos de escrita, impôs-se como um dos grandes nomes das letras portuguesas.

Li vários livros dele, e é sempre com prazer que regresso às suas histórias. Gosto da forma segura como avança na narração, quer na brevidade dos contos, quer no espraiamento dos romances. E aprecio sobretudo os títulos, que conseguem ser bastante surpreendentes.

Num certo verão, na praia, diverti-me muito quando amigos ou familiares me perguntavam o que estava a ler. Eu respondia, de forma bastante ambígua: “Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto”. Parecia uma resposta completamente disparatada, até as pessoas verem a capa do livro e perceberem que se tratava de um título.

Mais títulos aliciantes? Um deus passeando pela brisa da tarde. A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho.

Mas deixemo-nos de outros títulos, e avancemos para o título e subtítulos deste livro: Quem disser o contrário é porque tem razão. Letras sem tretas. Guia prático de escrita de ficção.

As ideias

Quem disser o contrário é porque tem razão é exatamente o que título e subtítulos sugerem – ou talvez não.

Por um lado, o título assume uma dimensão de autoironia que, à partida, nos leva a compreender que não há receitas possíveis para a escrita de ficção. E o mesmo se aplicaria, sem dúvida, à escrita de poesia. Na escrita criativa, é possível fazer qualquer coisa, ou o seu contrário. Suponho que esta é uma das grandes lições da história da arte em geral, e da história da literatura em particular.

Assim, se o contrário é, talvez, mais sensato e razoável do que aquilo que é apresentado neste livro, faz sentido considerá-lo um guia prático de escrita de ficção? Mais: será possível escrever um guia para a escrita de ficção? Poderá a criatividade pautar-se por orientações?

Como é evidente, Mário de Carvalho tem plena consciência de tudo isto. E oferece-nos uma obra fantástica, que se lê como um romance. Combina, não sei bem como, uma grande erudição com um tom coloquial completamente despretensioso.

É, de facto, um livro de letras sem tretas: muitas referências literárias (e mesmo de teoria da literatura), muita simplicidade. Nas palavras do próprio autor, “pretende tão-só, num itinerário vagamundo, desvendar uns poucos caminhos, anotar-lhes as curvas e contracurvas, prevenir dos salteadores e trapaceiros, e indicar algumas razoáveis estalagens” (p. 11).

A minha opinião

Adorei ler este livro. E fi-lo de lápis em punho, à moda antiga, para anotar e sublinhar.

É, de facto, uma obra extraordinária, interessantíssima para quem gosta de escrever. Mas também para quem não gosta de escrever, mas gosta de livros e tem curiosidade em relação aos bastidores da criação literária.

Encerra conhecimentos sólidos, experiência, muitas referências a obras de ficção e de estudos literários, tudo isto de forma leve e agradável, amenizada por um grande sentido de humor. Aliás, como já referi, basta olhar para o título (fantástico!) para perceber o humor, o despretensiosismo e a autoironia…

Adorei. E reforcei a minha opinião sobre Mário de Carvalho, que considero um autor incontornável.

CARVALHO, Mário de, Quem Disser o Contrário é Porque tem Razão, Porto Editora, Porto, 2014.

2 Comentários

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    Albertina Seco

    Também acabei de ler o livro. Subscrevo a opinião. É mais um para retomar sempre, porque sao muitos os sublinhados. Levou-me até a procurar muitos outros que fazem parte das minhas memórias, nomeadamente “Os Esteiros” de Soeiro Pereira Gomes que adoro.
    Obrigada pelas palavras, Paula.

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