A minha história,  Poemas,  Reflexões

Os sabores da infância – 1

Morangos silvestres

Quando eu era pequenina, nas tardes de domingo íamos visitar os meus avós maternos. Eles viviam numa zona rural, no lugar do Barbeito, numa típica casa de lavoura, com adegas, currais, galinheiros, coelheiras e vários anexos, incluindo uma cozinha de forno, onde se amassava e cozia a broa de milho. As visitas ao Barbeito eram sempre especiais, com muitos primos e muitas brincadeiras.

Naquele tempo vivia-se mais devagar. Por isso as tardes de domingo eram muito longas. Os adultos conversavam, sentados nos degraus de pedra que davam acesso ao andar principal da casa. Ou então, na sala de jantar, em torno da mesa, jogavam à sueca. Entretanto, no pátio, a criançada organizava todo o tipo de brincadeiras: saltava-se à corda; brincava-se ao “faz-de-conta”; andava-se num baloiço improvisado com uma tábua e cordas presas a um ramo da figueira; jogava-se ao mata, à macaca, ao velho ou às prendinhas.

Mas tão importantes como as tardes de convívio no Barbeito eram as caminhadas de quase dois quilómetros que fazíamos até lá. Partíamos ao princípio da tarde, eu, a minha mãe e os meus irmãos. O meu pai ia lá ter mais tarde, de carro, e trazia-nos de volta para casa. Mas a ida era feita a pé, “pelos carreirinhos”, como nós dizíamos.

Saíamos de casa e enveredávamos por caminhos estreitos, que seguiam junto ao rio e através dos campos. A água do rio brilhava e murmurava, saltitando sobre as pedras. Havia árvores, flores, pássaros e borboletas. O meu irmão era especialista em fazer pequenos apitos a partir dos caules ocos do centeio. Eu e a minha irmã apanhávamos todo o tipo de flores, que oferecíamos à nossa mãe. Nesses passeios, eu deixava que a minha alma se enchesse de sol, em dias de primavera.

Além das flores, havia pequenos tesouros que se nos ofereciam nas bordas dos caminhos. Eram os morangos silvestres, dissimulados entre folhas verdes. Procurávamo-los pacientemente, até os descobrirmos nos cômoros, entre as ervas e os musgos, como ténues esferas avermelhadas. E era tão bom esmagá-los entre a língua e o palato, saborear a sua doçura levemente ácida!

Ainda hoje, quando recordo as visitas aos meus avós maternos, a minha infância sabe a morangos silvestres.

6 Comentários

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    Maria Mauricio

    Parabéns Paula! Ao deparar com estas fotos e este texto o meu coração estremeceu. Estremeceu de saudade, emoção e alegria ! A casa mãe do Barbeito era um ninho de felicidade para todos nós, o livro musical que nos fazia sorrir e sonhar com as cenas de teatro improvisadas. As memórias do Barbeito são eternas.
    Vivia-se mais devagar, mas vivia-se cada momento com uma intensidade não mensurável, sem televisão e sem telemóvel.
    Mas…..Recordar é viver!

    • Paula Margarida Pinho
      Paula Margarida Pinho

      Olá, Quinita!
      Obrigada! Sim, estas memórias são um tesouro que transportamos connosco, para acarinhar e partilhar! É um privilégio termos tido momentos tão felizes, na nossa infância.
      Inicialmente, neste texto, eu previa escrever apenas algumas palavras sobre os morangos silvestres, e partilhar o poema. Mas depois as palavras empurraram-me para as idas ao Barbeito, nas tardes de domingo. Além dos morangos no percurso, em Areias, havia tantos no cimo do quintal, antes do tanque!…
      Havemos de ir apanhar morangos silvestres com os nossos netinhos.
      Beijinhos.

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    Margarida

    Também fiz esse percurso algumas vezes, mas não deve ter sido na primavera porque não me lembro de comer morangos pelo caminho. A minha recordação desses morangos está ligada a Algeriz. Lá havia imensos.

    • Paula Margarida Pinho
      Paula Margarida Pinho

      Olá, Guida!
      Sim, por vezes ias também connosco ao Barbeito. No percurso havia morangos silvestres na zona mais sombria de Areias, nos cômoros húmidos. Mas é possível, de facto, que tenhas feito essa caminhada mais vezes durante o verão.
      Eu lembro-me de ir a Algeriz convosco, mas também não recordo a existência de morangos.
      Beijinhos.

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